Daccapo sem fim

E o que fazer quando sua vida parece uma sinfonia sem fim? Quando há um ritornello, mas não há uma barra final? Como um eterno daccapo. Esses dó dó dó dó si sol lá já não conseguem largar dos meus pés, que dirá dos meus ouvidos e, consequentemente, do meu coração. Do ritmo dele. É sempre a mesma sequência de andamentos, a mesma quantidade de movimentos. Não sei mais o que posso fazer para mudar isso, para seguir em uma outra tonalidade. Há bemóis demais para tão poucos compassos. E tantos ritardando... Estou tão cansada de voltar ao início. Não, do início eu até gosto. Gosto muito. Aquele pianíssimo que vai crescendo lentamente, bem allegro. O problema é quando chega ao meio da sinfonia, e passo a ter então que enfrentar aquela enxurrada de bequadros que me deixam louca! E quando a música volta finalmente a assumir seu tom original, a expectativa de um final diferente aumenta escandalosamente. Sempre acho que dessa vez haverá a tão esperada barra final. A barra que permite que haja outras sinfonias, ainda mais bonitas que essa. A que me possibilita desfrutar de outras notas, compor outras harmonias, experimentar novos tons. Mas sem trocar de instrumento - só trocando a partitura. Espero ansiosamente esse momento a cada nota que vivo, a cada vibrato que alongo, a cada fermata que tenho até medo de ler no papel, por não saber se haverá um maestro que me fará parar de tocá-la quando eu começar a fazê-lo. A música me liberta, entretanto às vezes a liberdade é tanta que eu me sinto presa até o pescoço. Mas, se isso for pedir demais, rezo ao menos pra que um dia haja uma casa dois, limpa em dó maior, pra me livrar do que nunca consegui deixar de ser: constantemente desafinada.

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