Verde-jade
Quintal. Cheiro de terra molhada, respingos de uma chuva que já foi, grama úmida e céu branquinho, branquinho. Passaram-se trinta e dois minutos e alguns segundos não muito importantes. Raio de sol por entre as nuvens que não mais arrefecem. Maritacas começam a cantar seus dós e fás desafinados no galho da árvore molhada, já são seis e dezesseis da tarde. Vejo formigas formarem fila, uma atrás da outra, até a cozinha. Sinto cheiro de bolor de queijo, lenha queimando na lareira, casacos de lã pendurados e mamãe orgulhosa contando às amigas sobre minha pressa de aprender. O sol começa a vestir o dia de vermelho, estranhamente - pareceu ser mais presente agora, no fim do dia, do que no resto dele. Deitei no macio colchão verde - que cor linda - e me esparramei. Se estivesse nevando, eu certamente estaria formando anjinhos no chão branquinho, branquinho. Poderia estar nevando. Estava frio. No entanto, só percebi isso quando ouvi mamãe gritar da porta: "Menina, está louca? Entre agora mesmo, está muito frio aí fora! Vai pegar um resfriado deitada neste chão, depois não diga que não avisei, hein!" Ô, mulher. Sempre se preocupando demais. De algum modo, sempre me senti como o extremo oposto dela - mas sempre soube que éramos exatamente iguais. Obedeci a voz impaciente e entrei em casa. Ouvi vozes amareladas entre gargalhadas de tom nostálgico e meio azulado. Formava um verde bonito, que me chamou a atenção. Verde lembrava minha infância, não muito longe de mim, mas ainda assim inalcançável. Doze anos. Doze anos e queria voltar a ter cinco. Pois, se há uma coisa que nunca tive capacidade de engolir, foi a obrigatoriedade a mim imposta de amadurecer prematuramente. Lembro-me bem como se tivesse ocorrido hoje de manhã cedo. Papai tinha bigode e dava um beijo em mamãe enquanto ela trançava meus cabelos lisinhos como crina de cavalo preta. Mamãe estava radiante - sem nenhuma maquiagem, mas com um brilho nos olhos que refletia nos óculos de papai. Óculos verde-jade, estilo tartaruga, sabe como é? Bem antiquados, mas tão... aconchegantes. As esferas negras por detrás daquele par de lentes pareciam conter o mundo. Ô, meu velho... Que oceano pacífico de pureza. Ele nada precisava dizer - estava tudo ali, gritando: "Meu mundo é feliz com vocês, as duas mulheres de minha vida." Saudade... Eita sentimento bom e ruim ao mesmo tempo! Onde já se viu ser tão paradoxal? Causa uma dor tão grande, tão profunda... tão bela. Esse sentimento, somente denominado na língua portuguesa, nunca deixa de andar junto, e não só junto, mas de mãos dadas com o amor - quase como recém-namorados andando na orla da praia, um olhando pro outro, não conseguindo, e nem mesmo pensando em desviar o olhar. De repente é por isso que saudade é tão complicado conceito. Ouvi uma vez, na fila do mercadinho quando fui comprar pão quentinho pra mamãe, que o amor virou clichê. Tive de rir - desculpe-me quebrar o clima, mas quem disse isso, não sabe diabos sobre o que está dizendo. O amor, minha gente... o amor nunca enjoa. Ele nunca permanece o mesmo; nunca se ama da mesma forma. Na realidade, é sempre igual, uma vez que o classificamos da mesma maneira que outrora, mas sempre se transforma em algo completamente diferente. Tanto com amigos quanto com parentes ou amores de vidas - principalmente esse último, afinal, a intensidade do presente supera quaisquer resquícios de passado. Lembranças permanecem na memória mesmo que contra a vontade, mas nada se compara ao momento. Ai ai, amor clichê... É mole? Se papai ainda estivesse aqui, teria rido junto comigo. Certamente pro coroa seria como dizer que o Flamengo não é o melhor time do Brasil!
verde-jade
ResponderExcluirfora verdade
deixa de lado
esquece o fardo
que tudo corre
tome um porre
Eu gostei muito e tá lindo.
ResponderExcluirCheiro de terra molhada = cheiro de ionização
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