Te torno (e entorno)

E então acordo. O sonho não fora verdade; o que fora foi o dia anterior. Maldita sexta-feira de merda. Sem saber por exato no que eu havia me transformado, mais que automaticamente pus minha mão debaixo da cama, tateando com pressa, à procura do meu maço de paciência. Fui até a cozinha e fiz um café forte, sem açúcar. Desde pequena baseio minha vida no meu estado de espírito. Nasci dessa forma. Se acordo feliz que nem criança, me visto toda colorida e de quebra às vezes ainda dou de fazer uma maria-chiquinha no cabelo. Se estou num dia estressante, mal me arrumo. Saio de casa despenteada e faço questão de não passar nenhuma maquiagem em minhas olheiras. E, se me sinto amarga, bebo café amargo. Não que eu prefira café amargo a adocicado; tudo só precisa se adequar a como me sinto. E eu me sinto assim nesse momento. Afinal, qual é o gosto da desilusão se não bem amargo, que nos faz estremecer de tão ruim? E meu cigarro traz essa poluição amorosa pra dentro de mim. Não, não é pra agravar a guerra que aqui ontem se deu início. É pra tudo se encaixar. A fumaça que agora empesteia meu quarto é igual àquela mentira que antes achei ser verdade. É quase minha ingenuidade. A mentira que se fez verdade devido à minha ingenuidade, que agora é fumaça. Fumaça que vejo, que ouço, que inspiro, que como aqui e agora. Mas muito mais em mim. Não a que estraga meu pulmão, não. Essa mal pouco faz ao lado daquela que toma conta dessa aura-alma. Voltando a cá, vejo-me semi-nua, vestindo meias três-quartos rasgadas e sujas e teu samba-canção do dia que estiveste em mim. Café derramado no busto e escorrendo pela barriga, chão de cinzas. "E agora, a quem vais recorrer, porra? A QUEM RECORRERÁS?" - Eu gritei isso em voz alta? Não importa. Eu me viro com meu café e meu nada oco ecoante. E eu não voltarei, não. Pego um casaco, calço um chinelo, vou caminhar. Tentar te gastar como energia. E corro. Corro e a cada passo sinto-te mais longe, sim, mas do meu esquecimento. Te avisto ao longe e grito teu nome. Mas não ouves, sempre tão distraído, absorto em teus próprios pensamentos. Me lembra eu mesma. Eu, que queria ser tua musa, tua música, tua. Mas já há quem interprete esse papel. Então, pra te esquecer, faço de ti literatura. E não voltarei. Não.

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