Fim

Era mais um mês outonal de pouco frio e muitas folhas. A mão que a tocava ainda era a mesma, a qual não sabia distinguir de quem era quando em seus delírios mergulhava. Nada havia mudado de maio àquele junho. A chuva ainda molhava, o sol ainda a fazia enrugar o rosto, o vento ainda a descabelava e a vida ainda era de um roxo amarelado, difícil de definir por exato. Ela sabia bem que aquele roxo vinha do vermelho da febre que a impedia de desligar-se da realidade e afogar-se no vazio ecoante da mente ininterrupta. Ela sabia que aquele amarelo vinha da luz que a mantinha acordada, a qual era a única coisa em sua vida que queria que desligasse. Amarelo vindo da luz que iluminava a imagem que queria apagar, que queria triturar, despedaçar, arrancar de sua cabeça inimiga de todas as horas. Imagem do semblante, da boca vermelha que lembrava o ósculo, do calor insuportavelmente vivaz que exalava do toque da mão, da unha, da pele, do osso, dele. Dele inteiramente dela... Não. Não mais. E, ao decorrer desse pensamento, a ansiedade pairava sobre seus nervos à flor da pele, as lembranças iam voltando, os dentes mordiam a boca que sangrava, o punho apertava e socava o peito que parecia querer explodir, a dor era demais, chegava a ter certeza de que era alguém estrangulando seu coração, querendo despedaçá-lo, roubá-lo dela, matá-la sem vestígios de piedade. Não. Não... Era somente ela. Ela e sua inimiga, a qual fazia parte dela. A qual, se ela matasse, morreria junto. A qual era ela própria na teoria. Sentiu-se então enxarcada. Seu suor havia sido tão intenso que molhara o chão. Escorria pelos seus joelhos e pernas como se fosse uma bica. Tirou o vestido preto encalorada e jogou-se no sofá. Não tirara aquele vestido desde o ocorrido. Não tomava banho, mal comia. Um mês havia se passado. O corpo dela não demonstrava mais com frequência precisar de alimento e água. Sua necessidade agora era ele somente. Seu racional parecia não funcionar. Ou funcionava? Ela parecia não absorver o real, mas ao mesmo tempo não corria atrás de nada. Sabia que nada podia fazer. A vagabunda o havia roubado dela, e ela se encontrava sem saída. Porque a prostituta não era uma qualquer. Era alguém bem melhor que ela, com muito mais poderes. Alguém influente, que podia fazer o que bem entendesse na hora e no local que bem desejasse. Já ela, oras, era só... Clara. Nada mais. Se chamava Clara e o amava quase mais que a própria vida. "Quase" porque sabia que não valeria a pena suicidar-se após perdê-lo. E ela o perdera àquela que podia ter qualquer um... Que tinha qualquer um. Tinha todos. Eles e elas. Aquela que não fazia questão de ser correspondida; relutâncias não a cessavam nunca. Ela o perdera a tudo, o perdera ao nada... Ela o perdera à Morte.

Comentários

  1. Tadinha da Clara, tem muito o que aprender, hehe. Show o nome do seu blog! Cadê o post de agosto? :)

    Ósculos.

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