Você virou saudade...
Despertador tocando - seis da manhã. Mais um dia nublado, chuvoso e gelado. Depois que você foi embora, todos os dias, até os mais calorentos, têm parecido dias de inverno sufocante. No ônibus, lembranças dos dias que pegamos ônibus juntos, minhas pernas no seu cólo, suas mãos me enlaçando, nossos corações completamente encaixados... como se fossem duas partes de um só coração que se separaram antes de vir para a Terra. Indo para o colégio, a lembrança do dia quando estávamos nós dois em frente à banca de jornal ali perto. Mas o que eu mais lembro, o que a minha mente mais teve vontade de memorizar naquele dia, foi o seu sorriso. Aquele sorriso apaixonado, de coração virgem, de felicidade plena. Quem avistava-o, a primeira coisa que pensava era: "esse sorriso não vai sair de sua boca por bastante tempo ainda". Era um sorriso que invejava qualquer um. Só não a mim, que sorria, naquele momento, naqueles últimos dez meses, da mesma maneira que você. Com a mesma intensidade, com a mesma vontade, pelo mesmo motivo que você. Na minha cabeça era pra sempre. No meu coração, era mais do que pra sempre. Pena que, dessa vez, não era recíproco. Quando me dei conta, todas as lembranças perfeitas que tanto dominavam a minha mente por inteiro e sem descanso não viriam a se repetir. Tinha virado passado, e você tinha virado saudade. Ah, e quando eu penso em saudade... lembro quando você me dizia as saudades que sentia, tão grandes que dispensavam qualquer adjetivo empregado a elas. Meu coração era como se fosse o seu, tudo o que eu sentia por você, você sentia por mim. Mas como todo organismo vivo, sofre mutações. Seu coração passou a não mais se encaixar ao meu, como se fosse uma peça de quebra-cabeça que não mais se encaixava com a que costumava se encaixar... Mudou e, assim, passou a se encaixar em outra. Se encaixar em outra. Em outra. Outra. Mas o meu continuou o mesmo, sem sofrer mutações, e sem outro com quem se encaixar. Havia acabado, de fato, mas era como se ele ainda sentisse que sua metade ainda existia, só estava perdida por aí, vagando... sozinha.
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