Meu velho

- Mas, vô, você não tem dinheiro pra comprar uma calça nova pro senhor, como vai comprar uma casa de boneca pra mim? - perguntei a meu avô, após sua promessa de que me compraria qualquer coisa que eu quisesse - E a da Barbie ainda por cima!
- Você merece o mundo, minha neta. Não há menina mais bonita que você nele. És como as rosas do campo, e teu perfume, como as margaridas.
- Hahahaha, vô, para com isso, senão eu acredito!
- Ah, não acredita não, é? - E começou a encher-me de cócegas.

Sabe, eu nunca quis uma casa de bonecas de verdade. Eu sabia, mesmo bem criança, que meu avô nunca poderia pagar algo assim. Na época, Barbies eram os brinquedos favoritos de qualquer menina, e por serem tão requisitadas, eram as bonecas mais caras do mercado. E eu disse que queria a casa dela.
Claramente ele nunca me deu. Foi embora antes, incapaz de realizar a promessa que fez. Não que eu me importe. Meu avô era meu melhor amigo. Com ele, minhas risadas iam longe longe, até a casa do vizinho - sabia disso porque às vezes ficávamos até tarde contando piadas até eu pegar no sono, o que levava a xingamentos do moço da casa ao lado que queria dormir -, os pentes da vovó se tornavam brinquedos em seu cabelo branquinho feito neve molhada, e sua barriga era um pula-pula.
Mas de repente tudo se transformou em uma sombra. Seguia-me por todos os lados, mas não era nada na verdade. Eu não podia tocá-lo, brincar com seu bigode, nem mesmo rir com ele eu podia. Era só um pedaço de mais nada.
Saudade não é isso que todo o mundo diz por aí, não. É meio um nada misturado com tudo, com uma pitadinha de ''por quê?'' e uma colher de sopa de amor de sabor afinidade. Não é só sentir falta, não é. Mas é também.
Não sei por quê, mas um ''eu te amo'' a familiares melhores amigos parecem muito mais verdadeiros que eu te amos a amantes, mesmo que muito amantes mesmo. Portanto, te amo, vô. E cá entre nós, o céu nem é o limite, meu velho. Nem é o limite...

Comentários

  1. Cacete, que saudade do meu avô, Jade...
    É a pior dor do mundo e a coisa mais forte que já me deu... né?
    Sei lá, MERDA

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  2. Lindo lindo lindo!

    Gostei da tua definição não definitiva de "saudade".

    Parabéns, lindo mesmo!

    ;)

    Abraço,

    Marina

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  3. Minha filha, obrigada por lembrar do meu pai. Foi como se o visse novamente...

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  4. Ai que loucura: chorei.

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