Psicanalgésico
Ela se sentiu vazia. Talvez menos do que já sentira, mas era algo que a incomodava. Achou que fosse o tédio - férias nem sempre são o que realmente desejamos, mesmo que passemos o ano inteiro esperando chegarem. Seus amigos tinham ido viajar, seu namoro havia chegado ao fim e seus pais haviam acabado de se separar. Não haveria shows, idas ao shopping nem churrascos com os amigos; não haveria idas ao cinema, dvds embaixo do edredon nem passeios em volta da Lagoa com namorado; não haveria almoços de domingo fora de casa nem viagens com a família. Resolveu então passar um tempo com ela mesma; às vezes o silêncio e a solidão são o melhor remédio. Ajeitou o cabelo, se despediu da mãe e calçou um velho par de chinelos. Pegou um ônibus na Tijuca e saltou em Ipanema. O dia estava favorável - sol e céu impecavelmente azul, mas não fazia muito calor, já que eram quatro e pouquinha e aquela brisa de final de tarde típica da zona sul da cidade marcou presença. Cabelo ao vento, atravessou a Vieira Souto e sentou na areia da praia. Lembrou de como sua vida era melhor quando seus pais ainda estavam juntos; como a sua infância tinha sido boa ao lado deles dois. Lembrou do dia que caminhou por aquela areia até o Arpoador com seu ex-namorado, e agradeceu a Deus por todo aquele sofrimento devido ao fim ter quase chegado ao fim. Várias lembranças de sua infância foram invadindo sua mente por inteiro e sem descanso, bem no ritmo das ondas, conforme mais famílias inteiras e felizes iam se aconchegando na areia. Ela queria desabafar, mas seus amigos estavam fora de área. Só não tinha viajado também devido à situação na qual seus pais se encontravam. Normalmente ela nem ligava tanto para as viagens, mas agora ela necessitava fugir, ir pra bem longe. E então se deu conta de que a solidão era mesmo o que ela precisava no momento. Curtiu então muito mais sua própria companhia; viu quão importante era estar consigo mesma pelo menos por um dia. Organizou as ideias e percebeu que, assim como a dor de ter sido trocada na semana seguinte do término de seu namoro por outra menina havia diminuído muito, com a dor da separação de seus pais aconteceria o mesmo. Esperou no ponto de ônibus e voltou pra casa. Depois daquele dia, pelo menos uma vez por mês passou a ir à praia ver o mar e aproveitar sua companhia. Às vezes a solidão é o melhor analgésico; mesmo que seu gosto seja ruim, o resultado é sempre satisfatório.
Gostei do título. Só não pode esquecer que todo remédio tem risco de virar vício. Do resto, solidão até que faz bem, mas cuidado pra não virar uma hipopótama.
ResponderExcluirHipopótamos não vivem sozinhos, Gi! Lembra daquele que morreu porque sua parceira morreu? ='(
ResponderExcluirDescobri que ele tinha um tumor no cérebro, foi uma aberração.
ResponderExcluirAhhhhhhhh acabou com o romantismo, Gi!
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